sábado, 13 de outubro de 2012

Mal posso engolir as palavras que ia dizer. Não disse. Hoje, pela manhã, recebi uma cantada... sem perceber. Vai lá que devo estar sem a sintonia para estas coisas ou tenho um total desinteresse por isso. O fato é que percebi que fui cantado umas três horas depois. A resposta da pergunta foi tão direta da forma que soou, apesar de ter tido a intenção indireta. No caso, quem quer saber o que vou fazer nesta noite? que não esteja interessado em ter a minha companhia e perguntar assim: "o que tu vai fazer hoje à noite?"?
O meu despercebimento passou ao acaso e falei com total sinceridade:
"Acho que vou dormir."
A conversa que se iniciava morria ali. Para mim, com uma naturalidade de uma conversa qualquer. Para a outra pessoa, um balde d'água fria.
Ou, talvez, tenha exagerado um pouco.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

De madrugada

Sentado nesta triste madrugada.
Vendo a escuridão desta amplidão
da qual nada me atém...
Acho que não vale mais a pena falar
e ser quem eu quis ser,
minha voz perdeu a graça
a mansidão...
Eu já havia dito.
Tudo é tão melancólico
quanto esta madrugada que entra
na minha janela...
Nem me pareço com aquela boa pessoa
que pensei que um dia fui.
Sinto falta disto.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Ia ser assim mesmo

No fim de tudo ia ser assim mesmo,
só.
Os meus amigos que vão pelo mundo
com saudades de mim.
Aonde estou mesmo?
No fim de tudo, na solidão de meu quarto.
As doces meninas que um dia conquistei,
pelo mundo, sem saudades de mim.
Para onde fui?
Voltei para mim mesmo.
Ah... meus avós com um pé na cova
e eu sem nem ter algo para lhes confortar.
Sempre achando que as coisas mudariam...
sozinhas, por elas mesmas.
Mas, tudo continua igual.
Se não fossem as mentiras que contei,
se fosse apenas isso.
Ah... estou sozinho
e as paredes do meu quarto gritam:
"saia! saia daqui!"
Quem diria... até em casa
sinto não um estar em tranquildade
sinto uma solidão qualquer...
Um quê de insosso,
um dissabor sobre as coisas além de mim.
Eu sou, de fato, um sujeito voltado para mim mesmo:
sozinho.
Chego a duvidar da minha existência
e toda a sua magnitude de existir.
Afinal, me parece que o mundo continuaria
ainda assim.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Arquipélagos estelares

Meu deus, se houver um outro mundo
além deste aqui,
não me leve...
me escuta?
Este aqui é tão perfeito...
Se há outro céu além deste,
mais bonito que este...
menos intrigante e inalcançável,
menos aterrador e, ao tempo que, silencioso
sem mistério...
tudo revelado...
Não. Não me faça ver agora. [ou nunca]
Estou diante de todas as estrelas que posso ver.
E não quero mais nada.
Acredite em mim.
[uma vez que seja]

sábado, 14 de julho de 2012

Indisposto

Esta tua ideia me enfada...
Enfada ainda mais
saber as consequências
que o meu enfado
vai te causar.
Veja por outro lado...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Rasguei umas páginas

Fiquei hospitalizado nos últimos dias por conta de um risoto mal feito e comprimido.
Quando voltei para casa, aproveitei a recuperação e arrumei meu quarto. Achei uns cadernos, abri-os e iam lá umas teorias incompreensíveis, outras fórmulas matemáticas e uns mapas... tinha algumas frases soltas...
Rasguei algumas páginas e colei-as na parede. Havia uma que me intrigou e reproduzo aqui:
"Tenho ideias úteis, não sei quando, diz-me a professora que...
Mas, as tenho, segundo diz-me a professora. Eu nunca achei isso. Ela disse-me, ainda hoje, que tenho ideias úteis e criativas... busquei na memória alguma... não achei. Cheguei a conclusão que devo escrevê-las."
"Tenho segredos, como todo homem os tem.
O homem que não tem segredos, não o é,
nem homem nem segredo, é apenas uma existência
sem significado.
O problema dos meus segredos
é que nunca vou contá-los enquanto vivo estiver.
E de que me vale ir à cova sem descobrirem-nos?
Não carece.
Tenho segredos, alguns infantis,
alguns juvenis
e outros imbecis,
como todo homem os tem.
E que leva ao túmulo junto dele."

segunda-feira, 18 de junho de 2012

"Meu" bem-te-vi

Sempre pousava na minha janela, um bem-te-vi. Havia um horário certo. Ele cantava daqui, outro respondia de um outro local. Passava alguns instantes pela manhã bem cedo, ia embora, e retornava para mais outros instantes no final da tarde. Não sei se era o mesmo. Para mim, era. Até comecei a sentir falta dele e do canto do outro quando eu não podia estar em casa no horário dele. Convenci, portanto, de que o bem-te-vi era meu. Afinal, pousava sempre à minha janela!
Um dia, deixei alguns pedaços de pão para enfastiar meu querido bem-te-vi. Com o tempo, passei a deixar quase todo dia. Antes de sair pela manhã, deixava os farelos de pão na beirada da janela. Quando voltava, no fim de tarde, não tinha farelos e o bem-te-vi estava lá. Cantava, esperava o outro, anônimo mas que deveria ter uma janela para ele e as mesmas cores, cantar e cantava novamente. Não tardava e ia embora. Sem se despedir nem nada. Considerava-o meu, mesmo assim.
Certo dia, veio uma andorinha e mais outra. E meu bem-te-vi não veio. No outro dia, vieram as andorinhas e mais outras andorinhas. E vieram pardais e pombos. Deixei de colocar os farelos de pães na janela. As aves eram tantas e subiam pelo telhado, invadiam a minha casa. A vizinhança já comentava e estranhava aquele tanto de aves pelas redondezas nunca antes vistas. O fato é que as tais andorinhas e os famigerados pardais não cantavam, faziam um barulho que ficava entre o histerismo e a loucura. Disputavam cada palmo do meu telhado! A rivalidade caía noite adentro. O silêncio havia se tornado um som raro em minha casa.
Passei a deixar a janela fechada. Não me interessava aquelas andorinhas, pardais e pombos. Eu queria ver o bem-te-vi.
Nunca mais vi o bem-te-vi. Nunca mais. Quando o considerei mais meu, foi quando o perdi.
Hoje, pela manhã, antes do céu clarear por um todo, escutei um bem-te-vi e outro responder. Meus ouvidos mal acreditavam no que ouviam, arrepiei-me todo. Fiquei na cama, de onde escutei o primeiro canto. Escutei o eco. Escutei de novo. Bem de perto. Não tive vontade de ir à janela. Fiquei imóvel, imaginando os seus gestos, a sua atitude juntando-se ao seu canto e ao canto do outro, anônimo e não por isso menos encantador.
Na verdade, ele nunca foi meu. Eu devia ter deixado a coisa acontecer naturalmente, sem ter que tomar-lhe como meu. Talvez, ele nem saiba minha existência. Talvez, ele nem mesmo saiba o que é existência. E é isso que o deixa ainda mais fascinante.
Canta, bem-te-vi. Canta, bem-te-vi do outro canto.
Devagarzinho embalando o meu início de manhã.
Hoje, então, fui outro.